Mtg Lore

Compêndio da Lore de Magic the Gathering

ASSALTO EM NOVA PHYREXIA - EPISÓDIO 04: CHANCES IMPOSSÍVEIS

Seanan McGuire

Autora premiada pelo NY Times por best-sellers como October Daye, InCryptid, Wayward Children e outros. Escreveu o premiado texto Emaranhados.

Elspeth acelerou o passo para igualar ao de Koth, ambos se movendo com toda a velocidade que a plataforma forrada de detritos permitia. O sacrifício de Nahiri os deixou mais próximos de seu objetivo. A situação também os retardou consideravelmente (salvo no caso de Kaya), pois escorregar nos detritos significaria uma longa queda até as profundezas da camada.

O buraco no céu cristalino sobre a cabeça deles ainda era visível, uma ferida dentada na perfeição do local, fervilhando com todas as cores de Phyrexia. Eles corriam em meio a uma guerra e, embora ninguém pudesse dizer que ficou intocado por seus horrores, por agora, eles eram pequenos demais para chamar atenção.

Arte por: Marc Simonetti

Elspeth disparou um olhar venenoso na direção dos guerreiros acima. Vocês mal podem esperar, ela pensou, tão feroz quanto podia. Vocês vão se arrepender do que fizeram conosco.

Eles não se arrependeriam. Ela sabia disso. Mesmo que tudo corresse perfeitamente a partir de então, mesmo que eles arrancassem uma vitória impossível deste caos, Phyrexia não se arrependeria de ter destruído Mirrodin. Eles não foram criados para se arrepender das coisas. Phyrexia agia pelo bem e pela glória de Phyrexia e, no final, isso era tudo o que importava. Tudo seria Um, ou nada mais existiria.

A ponte alta onde haviam caído parecia delicada demais para ter resistido ao impacto da enorme peça maciça do Coliseu de Sheoldred. Mesmo que, em condições normais, a ponte fosse resistente o suficiente, a natureza do impacto conferira ainda mais peso, com a magnitude do sacrifício de Nahiri tombando-a diretamente nas insondáveis profundezas brancas. Olhando sobre a borda, Elspeth conseguiu ver mais da camada abaixo do que parecia possível. Uma treliça de plataformas de alabastro se expandia por todos os locais ao seu redor, conectadas por longas pontes de tendões carmesim.

Depois dos maculados ermos de necrogênio dos Poços de Entulho, este lugar lembrava Elspeth do sangue salpicado sobre as areias brancas de Theros, manchando aquilo que deveria ser intacto. Koth, Melira e os engenheiros goblins eram mirranianos de nascença. Os planinautas eram estranhos no local, mas este era Mirrodin, este era o plano deles, e não de Phyrexia, independentemente do quanto ele havia sido transformado pelo óleo brilhante. Eles jamais deveriam parecer deslocados em sua própria terra natal.

Conglomerados de edifícios ascendiam sobre as plataformas na treliça como esculturas orgânicas, mesclando curvas esguias de metal mecânico com a crueza orgânica de ossos e tendões. Tudo era branco sobre vermelho, um plano inteiro feito à imagem de Elesh Norn, como um terrível pesadelo.

Embora as pontes tivessem sido claramente criadas para facilitar a passagem de multidões de phyrexianos, elas estavam vazias, exceto pelos próprios planinautas. A batalha que estava sendo travada sobre eles estava distante demais para sequer ecoar onde estavam; parecia que estavam sozinhos. Em vez disso, um som baixo preenchia o ar, como se as próprias estruturas o entoassem. Um hino phyrexiano de horrores.

“Nahiri fez um grande sacrifício por nós,” disse Koth. “Temos que continuar em frente para honrar o fim que ela escolheu.”

“Ela estava infectada,” disse Elspeth. “Eu vi as mudanças nela, pouco antes do fim. É impossível que ela não tenha se dado conta do que estava acontecendo. Mas ela nunca disse nada.”

“Ela disse para mim,” falou Melira, movendo-se em meio ao grupo para garantir que todos mantivessem o ritmo. “Quando estávamos na Fornalha, ela me perguntou se eu poderia ajudá-la.”

“E você poderia?” perguntou Elspeth.

“Sim,” disse Melira, respirando fundo. “Eu poderia tê-la ajudado, mas reverter o processo de phyresis é como puxar um espinheiro de um solo fértil. Ele lança centenas de raízes. Quando escavamos uma, encontramos cem iguais. Reparar seu corpo do dano que já havia sido causado a deixaria incapacitada durante dias. Ela teria que ter ficado para trás.”

“Para ela, isso seria equivalente a desperdiçar um tempo que já não tínhamos,” disse Elspeth.

Enquanto falavam, eles conseguiram alcançar Kaya. Kaya olhou para eles, escutando, e então perguntou, “Você poderia fazer uma cura dessas no Jace?”

“Se ele permitir,” disse Melira.

Kaya olhou para trás na direção de Jace e o viu caminhando, reservado, com o Sílex se mexendo dentro da bolsa que trazia no quadril. A ferida em seu braço havia evoluído: fios e metal cintilante brilhavam pela queimadura. O pouco de carne que havia restado tinha uma aparência crua e úmida, escurecendo conforme transmutava em cabos fibrosos.

“Não acho que ele vai nos deixar fazer isso,” ela disse, em voz baixa.

“Então você me conhece melhor do que acha,” disse a voz de Jace em sua cabeça. Melira, que tinha menos experiência com telepatia que os demais, pareceu surpreendida. “Você realmente achou que eu não prestaria atenção enquanto vocês discutem o meu futuro? Não vou colocar todos nós em risco para salvar minha própria vida, não depois de já termos perdido Vraska. Isso é mais peso do que estou disposto a carregar.”

“Bom saber que você ainda está conosco, Jace,” respondeu Kaya.

“Por enquanto,” Jace respondeu lugubremente. Sua voz mental ficou em silêncio novamente, enquanto toda sua energia se concentrava em mover-se para frente.

“Honraremos a história de Nahiri e o fim que ela escreveu para si saindo daqui vitoriosos,” disse Tyvar, que estava caminhando logo atrás com Kaito. “Um grande sacrifício exige um grande relato.”

“Só espero que ela esteja morta,” disse Kaito.

Elspeth se virou e olhou para ele, atônita. “Explique isso,” disse ela.

O planinauta magricela encolheu os ombros, fazendo com que o tanuki sobre seus ombros abanasse a cabeça. “Temos que admitir, é provável que ela seja a mais poderosa de todos nós.”

“Sim,” disse Elspeth, lentamente.

“Ela viaja há tanto tempo que duvido que qualquer um de nós conseguisse derrotá-la,” ele continuou. “Talvez nem dois de nós. Mas um a um, contra um poder daquele tipo? Eu seria derrotado, e você também. Não quero enfrentá-la do outro lado do campo de batalha. Ela optou por garantir que pudéssemos continuar seguindo em frente, mesmo que isso significasse se afastar da única pessoa que poderia ter sido capaz de salvá-la. Espero que seu sacrifício tenha sido realizado por completo, e que ela não pare no meio e se vire contra as pessoas que estava tentando proteger.”

“Às vezes, é melhor chorar pela morte de um companheiro do que se arriscar a lutar contra ele,” disse Tyvar, finalmente, com um tom comedido.

Era um pensamento perturbador que Elspeth não queria nutrir, embora soubesse que era inevitável. Eles não tinham encontrado um corpo entre os destroços. Embora Nahiri tivesse se sacrificado por eles, ela ainda poderia voltar com outra forma, transformada em um inimigo inexaurível.

“Bom, isso é terrível,” disse Kaya. “Obrigada pela observação.”

“Este não é o lugar ideal para ilusões mesquinhas.” Kaito encolheu os ombros. “Quando não vemos as coisas como elas são de verdade, acabamos nos machucando.”

“Um, que diabos é aquilo?” perguntou Kaya enquanto parava subitamente no meio do caminho e olhava, boquiaberta, para o colosso imóvel que surgia das profundezas abaixo deles.

Sua cabeça era uma lágrima invertida de metal branco, dividida no meio por um buraco vermelho vazio, como se algo ainda maior tivesse aparecido para retirar seu olho. A forma do seu corpo era curvada e alongada, fazendo com que fosse impossível compará-lo com uma forma corporal normal. Não era um inseto e nem um réptil, mas também não era humanoide ou criado seguindo qualquer projeto previsível. Todo ele era feito de branco e vermelho, adequando-se quase perfeitamente ao cenário ao redor. Antes que Kaya tivesse chamado atenção para ele, Elspeth o tomou por mais um edifício monumental.

“Elesh Norn não gosta de entregar o que acha que pertence a ela,” disse Koth melancolicamente. “Ela tem seus favoritos — aqueles que melhor a serviram ou que lutaram contra ela com mais ferocidade — ossificados. Transformados em ossos e adicionados à sua Basílica da Equidade.” Ele apontou para a estátua. “Precisamos ter cuidado mesmo assim. Já vi estruturas como esta ganhar vida e matar mirranianos que se aproximaram demais.”

Então a coisa poderia ser uma estátua ou um phyrexiano que atacaria assim que o grupo se aproximasse. Sua posição o deixava ao lado da ponte, uma ameaça assomadora. Elspeth fez uma careta enquanto segurava o punho de sua espada.

“Podemos ir para uma ponte mais segura?” perguntou Kaito.

“Não se quisermos chegar ao altar de Elesh Norn,” disse Koth. “A partir de lá, podemos ter acesso aos Jardins Micossintetizadores.” É lá que teremos acesso ao Germinúcleo, e é lá que ela plantou sua Destruidora de Reinos. É para lá que temos que ir.”

“Ainda não consegui entender como ela conseguiu plantar uma Árvore-mundo, mesmo que seja falsa,” disse Tyvar. A dimensão da Basílica roubou um pouco de presença de sua voz normalmente ressonante, fazendo com que soasse reduzido.

Todos ali estavam reduzidos. Eles se diminuíam na presença de Phyrexia.

Tyvar continuou: “A Árvore-mundo cresce dentro do próprio Cosmo, vinculando os reinos de Kaldheim. Ela existe dentro e fora da realidade. Mesmo que alguém tivesse roubado uma semente, ela dividiria este plano pela metade após germinar. O fato de que isso não tinha acontecido era um milagre e um horror.”

“Nunca vimos algo assim antes,” disse Koth. “A maior parte das pessoas não viu. Melira é a única espiã que temos que conseguiu ir até a árvore e depois voltar.”

“Só porque eles não conseguem me infectar,” disse Melira. “Todos que foram até os jardins comigo e sobreviveram por tempo o suficiente para sair novamente sucumbiram antes de chegarmos em casa. A árvore de Norn foi plantada abaixo do Germinúcleo, onde ela aprisionou Karn. É uma coisa realmente terrível, aquela árvore. Tyvar tem razão – olhando para ela, temos a ideia de que ela deveria dividir o plano em dois. Suas raízes são profundas, e seus galhos são tão altos que chegam até os Jardins Micossintetizadores.” Ela franziu a testa. “De certa forma, olhar para eles é como olhar para algo que está debaixo d’água. Os galhos têm formas estranhas e distorcidas, e há algo de errado com eles.”

“Trilhas dos Presságios,” disse Tyvar. “De certa forma, ela está gerando Trilhas dos Presságios nos galhos de uma árvore que não tem o direito de existir.” Ele olhou com desconfiança, primeiro para o nada e, em seguida, para o gigante imóvel que estava por perto. “Temos que acabar com isso.”

“É por isso que estamos aqui,” disse Kaya. Ela olhou para Koth. “Podemos continuar em frente?”

“Se for atacar, vai atacar,” ele disse. “O altar de Elesh Norn não está longe daqui.” Ele apontou na direção de um edifício maior que os outros, mais ornamentado, arranhando o céu como uma cidadela de branco brilhante e vermelho brutal, orgânica e mecânica ao mesmo tempo. Era bela de uma forma rigorosa e austera. Era um monumento a uma Phyrexia unificada.

Os olhos de Elspeth doíam se ela olhasse para a construção por muito tempo. Apertando um pouco mais o punho da espada, ela acenou. “Continuamos em frente.”

Eles continuaram a caminhada. Estavam mais juntos agora do que quando começaram a percorrer a ponte. Kaya continuava numa posição oposta no grupo à de Jace, mas independentemente do que ele disse para fazer com que ela lhe desse o sílex, ela já não o encarava mais com tanta fúria.

O golias não se mexia. Eles passaram por baixo do seu olhar vazio sem complicações, continuando em direção ao aglomerado de construções que os esperava na outra extremidade da ponte. Kaya permaneceu na frente do grupo, saindo de fase nos detritos em seu caminho em vez de contorná-los, com pequenos salpicos de energia roxa marcando seu caminho.

Koth, Elspeth e os mirranianos vinham depois, com Kaito poucos metros atrás, caminhando entre eles e Tyvar, enquanto Jace seguia na traseira com o sílex. Tyvar continuava olhando para ele, quando, por fim, disse “Apresse-se, amigo Jace. Não queremos perdê-lo agora.”

“Não, creio que não,” disse Jace, com uma fagulha de humor ácido em seu tom. “Não dá para salvar o Multiverso sem mim.”

As portas do altar se escancararam à frente deles, como a mandíbula aterrorizante de uma fera impossível e devoradora. A construção parecia congelada entre a vida e a morte, simultaneamente uma arquitetura fixa e um corpo petrificado. Ao olhar para ela, a pele do braço de Elspeth se arrepiou. Mas eles prosseguiram, alertas e prontos para o perigo, até o saguão vazio.

“Tenho a nítida sensação de que estamos caminhando para uma armadilha,” disse Tyvar, com um tom baixo que tinha menos a ver com seu respeito por aquele espaço do que por um desejo muito real de não chamar atenção. Phyrexianos congelados adornavam as paredes: os objetos favoritos de Elesh Norn.

Arte por: Nino Vecia

“É porque provavelmente estamos,” disse Kaya. “Primeiro nos espalhamos pela superfície, depois encontramos Vraska viva e capaz de aguentar tempo suficiente para chamar Jace? Com Ajani do lado deles, eles conseguiram antecipar nosso plano de ataque. Ele nos conhece bem demais. Essa Elesh Norn de que vocês tanto falam parece inteligente o suficiente para usá-lo contra nós.”

“Inteligente? Sim. Onisciente? Não,” disse Melira. “Suas forças estão distraídas com a rebelião. Temos que continuar em frente.”

Eles continuaram se aprofundando no edifício silencioso, passando por colunas de corpos imóveis, paredes com tendões que se desenrolavam como heras, fileiras e mais fileiras de dentes com aparência terrivelmente humana e mais milhares de outros pesadelos phyrexianos. A Basílica da Equidade não tinha fim, e eles estavam prestes a conhecer tudo.

A escadaria em espiral que ia da Basílica aos Jardins Micossintetizadores era acessada por meio de uma câmara que ficava abaixo do trono de Elesh Norn. Ela também estava desprotegida, e os planinautas se agruparam enquanto o sentimento de entrar em uma armadilha se intensificava. Tyvar passou os dedos sobre seu pedaço de metal do Vácuo Tremeluzente, aguardando o momento certo em que seria necessário converter seu corpo na substância mais rígida e mais resistente. Conservar sua magia para o momento mais oportuno era mais difícil do que ele imaginava; este lugar fazia com que ele quisesse ter uma armadura vestida a todo momento.

Todos eles eram heróis, grandes aliados na luta contra um terrível inimigo, e ele se sentia extremamente grato por sua história o ter levado ao lado deles. Nas histórias, quanto maior a derrota, maior a vitória que se segue. Mas era difícil pensar nisso agora, sob o peso de Phyrexia e do futuro.

Na base das escadas, havia uma plataforma de metal azul brilhante — um pequeno pedaço da Basílica que se prolongava para a esfera inferior. A escada que eles usaram para descer era uma coluna oculta por trás deles, esticando-se até o teto distante.

A primeira metade da coluna, mais próxima da Basílica da Equidade, era feita de metal branco. Conforme se aproximava do chão, o branco dava lugar a um cinza azulado metalizado, tornando-se estranhamente texturizado, quase como se fosse feito de pedra. Kaya piscou, levantando suas mãos como se desejasse tocar a parede.

“Não,” repreendeu Melira. Kaya olhou para ela com surpresa, abaixando suas mãos novamente. Melira, um pouco mais relaxada, explicou, “É micossintetizador. Foi assim que Phyrexia nos capturou antes. Eles invadiram o coração de Mirrodin e enviaram seus esporos infecciosos por tudo o que tínhamos.”

Kaya olhou novamente para a parede e se aproximou de Koth, com sua equipe de explosivos. “Bom saber,” ela disse.

“Me perdoe, Melira, mas não estou vendo nenhuma árvore,” disse Tyvar.

Jace gemeu.

O grupo formou um círculo ao seu redor e o viu agarrando o estômago, com sua pele dividida se afastando cada vez mais conforme as “veias” de metal por baixo lutavam pelo domínio dos tecidos do seu corpo. Ele conseguiu se endireitar, com os olhos emanando um leve tom de azul enquanto sua voz ecoava pela cabeça de todos.

“Melira disse que devemos procurar o Germinúcleo. Temos que ir mais a fundo.”

“Mais a fundo,” disse Koth. “Sim. Elesh Norn proíbe o acesso ao Germinúcleo.”

“Mas ainda existe um caminho,” disse Melira. “Elesh Norn não consegue atravessar materiais sólidos, como a amiga de vocês aqui.” Ela apontou o dedão para Kaya. “Só precisamos chegar até a porta. E atravessá-la.”

Os planinautas olharam para a paisagem forrada de metal, com delicadas colunas micossintetizadas, mas não viram nenhuma estrutura além daquela por trás deles.

Arte por: Andrew Mar

“Onde?” perguntou Elspeth.

“Por aqui” disse Melira, começando a abrir caminho pelo chão acidentado.

Os outros a seguiram, caminhando cuidadosamente para não tocar nos pilares micossintetizados. Todos se mantiveram juntos, de forma a evitar surpresas. Ela os levou até uma estrutura erguida de filamentos fúngicos que se retorcia em forma de entranhas, como se uma fera colossal tivesse sido estripada no local.

Gesticulando na direção da pilha, Melira disse, “A entrada para o Germinúcleo. Tudo o que ele toca, fica infectado. Acredito que Elesh Norn tenha pensado que qualquer mirraniano que tivesse chegado até aqui merecesse a honra da completação. Por sorte, sou imune à phyresis. Nem mesmo o óleo brilhante fica na minha pele por muito tempo.”

Quando ela se aproximou da pilha, a estrutura se agitou, pulsando, antes de se abrir em um aterrorizante buraco para a escuridão com gavinhas ondulantes. Uma entrada disfarçada de anêmona monstruosa. As gavinhas se estenderam, quase acariciando-a, e deixaram uma camada de óleo brilhante para trás. Ela limpou o óleo e se virou para os outros.

Koth franziu a testa. “A maior parte de nós não tem a sua resistência específica, Melira. Vamos ter que explodir o chão.”

“Por que estamos mexendo com isso? Vamos perder o disfarce que temos,” disse Kaito. “Não tem outra forma de descer?”

“Talvez eu tenha uma outra solução,” disse Tyvar. Ele segurou seu pedaço de metal de Vácuo Tremeluzente. “No coliseu, Kaito removeu o óleo phyrexiano da minha pele antes que ele pudesse invadir o meu corpo. Se ele conseguir limpar o óleo de forma suficientemente rápida, posso espalhar minha mágica pelo grupo enquanto atravessamos para o Germinúcleo. Teremos que ser rápidos. Transmutar essa quantidade de pessoas é uma proeza que nem eu mesmo sei por quanto tempo conseguirei manter. Mas isso nos dará um pouco de proteção, pelo menos o suficiente para Kaito fazer a parte dele.”

“Eu posso fazer isso, mas essa coisa resiste à minha telecinese. Vou ficar com uma dor de cabeça enorme,” disse Kaito, colocando-se a postos.

Melira franziu a testa. “Acho que podemos tentar,” ela disse. “Como isso funciona?”

“Me dê um momento,” disse Tyvar. “Nenhum de vocês conseguirá acessar sua mágica enquanto estiverem sob o efeito da minha, mas isso só quer dizer que teremos que nos mexer rapidamente.”

Kaito parecia alarmado. “Como poderei limpar o óleo se não tiver acesso à minha mágica?”

“O Halo que você tomou antes deverá ser suficiente para protegê-lo por alguns segundos,” disse Koth. “Podemos conseguir pelo menos isso.”

Kaito acenou e o grupo se juntou em volta de Tyvar, que respirou fundo. O cheiro de vegetação os envolveu, interrompido apenas pelo aroma oleoso fúngico da superfície micossintetizadora. De todos os membros do grupo, só Kaya o reconheceu como o cheiro do ar de Kaldheim. O metal começou a se espalhar pela pele de Tyvar, primeiro devagar e, depois, cada vez mais rápido, até que todo o seu corpo se transformou numa escultura de metal do Vácuo Tremeluzente.

O metal continuou a se espalhar, cobrindo-os sem dificuldade. Jace foi o último a se transformar totalmente. O ferimento no seu braço parecia quase resistir ao processo, como se Phyrexia não estivesse disposta a abrir mão do controle dele nem mesmo por um instante.

Quando o processo terminou, Tyvar ergueu a mão e disse, “Vamos.”

Eles continuaram em grupo até a massa acariciante de gavinhas, que rasparam suas peles endurecidas e deixaram rastros de óleo, mas não atacaram. À frente deles, havia um corredor estreito que levava a um vestíbulo aberto, conectado ao que parecia ser uma única ponte. Eles correram, sem desejo de conhecer o limite da magia de Tyvar antes de passar pelo corredor.

No fim, eles saíram não na terrível paisagem phyrexiana com a qual se acostumaram, mas em algo vivo e primordial, ainda mais terrível por estar crescendo. Tyvar olhou para Kaito. Kaito acenou, e Tyvar dissipou a mágica.

O metal do Vácuo Tremeluzente derreteu, trazendo todos de volta à carne, com as peles brilhando de óleo. Kaito arregaçou as mangas e o óleo levantou de seus corpos, formando uma bola que se arremessou da borda da ponte.

“Obrigada,” disse Kaya. “Ei, Tyvar, gostei do espetáculo… Tyvar?”

Ele não respondeu. Ele estava olhando para algo à distância, dirigindo-se para a ponte com olhos arregalados e o rosto pálido.

Kaya se virou e olhou para a Árvore-mundo phyrexiana. Destruidora de Reinos.

Era óbvio que Elesh Norn a havia cultivado, alimentado e corrompido. Sua casca era feita do mesmo metal porcelânico branco que eles tinham visto na superfície. Nos locais em que o brotamento abrira fissuras na sua superfície, era possível ver um tom de vermelho vívido e agonizante. Em vez de seiva, ela produzia óleo brilhante, e sombras estranhas se moviam pela sua superfície, confusas até o momento em que Kaya olhou mais para cima. Longos formas oblongas e brancas se suspendiam próximos aos galhos mais altos da árvore impossível, desaparecendo parcialmente no distorcido horizonte conforme alcançavam as Eternidades Cegas.

“Embarcações invasoras,” disse Koth lugubremente. “Elas estão quase prontos.”

“Isto é uma perversão da própria alma de Kaldheim,” disse Tyvar. “Eu sabia que seria um cenário horrível, mas isto… isto é muito pior do que eu imaginava.”

O ar estava estranhamente imóvel, como se todo o reino segurasse a respiração. Lá nas alturas, nos galhos distantes da árvore gigante, uma luz branca brilhava e apagava, espalhando-se em uma treliça terrivelmente simétrica pelas camadas superiores do céu.

“Temos que correr,” disse Jace.

Eles correram. A ponte que ligava os jardins ao núcleo de Nova Phyrexia era uma linha estreita sobre um poço sem fundo; na outra extremidade da ponte, havia uma abertura escura nas raízes emaranhadas da árvore. Os planinautas estavam quase chegando quando o céu piscou mais uma vez. Desta vez, o brilho foi de maior intensidade, como um sol explodindo nas camadas mais altas.

As explosões cataclísmicas enchiam a atmosfera de distorções prismáticas brilhantes, seguidas da impossibilidade reluzente das Eternidades Cegas. Jace gemeu. Elspeth tropeçou e estava prestes a cair pela borda da ponte, quando Koth agarrou-a pelo ombro e a puxou de volta.

Kaya só conseguia olhar para cima, com uma expressão em branco. “Chegamos tarde demais,” ela disse.

“Kaya —” disse Kaito.

Ela se voltou para encará-lo. “Todo esse esforço não serviu de nada,” ela desabafou. “A Árvore-mundo se conectou ao Multiverso. Elesh Norn pode acessar as Eternidades Cegas. Nós falhamos.”

“Me recuso a permitir que o coração de Kaldheim seja a arma que destrói o Multiverso,” disse Tyvar. “Ainda podemos fazer o nosso melhor para desfazer isso.”

“Corram,” disse Jace, sem fôlego. “Temos que correr.” Ele conseguiu dar mais alguns passos, cambaleante, e depois caiu no chão.

“Tyvar,” disse Koth.

Tyvar acenou e, tocando no pedaço de metal do Vácuo Tremeluzente, se transformou em metal e se aproximou de Jace, segurando o outro homem nos braços. Juntos, o grupo continuou em frente, rumo à abertura, rumo à escuridão.

A entrada levava a uma cavidade dentro da árvore, uma grande sala abobada formada de raízes entrelaçadas. Passagens escuras saíam da câmara. A maior delas, diretamente à frente do grupo, parecia ser o canal principal. No centro do espaço, sobre um estrado baixo, estava Karn.
Arte por: Kasia 'Kafis' Zielinska

O grande golem de prata havia sido aberto, dissecado, e estava espalhado pela plataforma. Para o terror de todos, ao ouvir o som dos passos, ele virou a cabeça e resmungou, “Vocês não deveriam estar aqui. Este lugar não é para vocês.”

“Karn!” Koth e Elspeth correram em sua direção e pararam quando estavam prestes a tocá-lo, observando o dano.

“O que eles fizeram?” perguntou Elspeth.

“Não é óbvio? Eles rejeitaram o Pai das Máquinas.” Karn agitou a cabeça. Esse parecia ser todo o movimento que ainda lhe restava. “Corram. A invasão ainda está começando. É possível que vocês ainda consigam salvar alguns planos. A menos que… não. O sílex foi destruído. Tudo está perdido.”

“Nós fizemos outro,” disse Elspeth. “Ainda podemos acabar com isso.”

Karn fez uma pausa, claramente pensando. “Vocês precisarão chegar à fonte da raiz e detoná-la.”

“Mas —” começou Melira, detendo-se depois de um olhar incisivo de Koth.

“Eu tiraria esse fardo das costas de vocês se eu pudesse,” disse Karn. “Essa deveria ter sido minha missão o tempo todo. Vocês deveriam estar livres para regressar aos seus lares e protegê-los do que está prestes a acontecer.”

“Mas você não pode,” disse Kaya. “Você não consegue nem se mexer.”

“É tarde demais para mim,” disse Karn.

“Não só para você,” disse Jace, empurrando o peito de Tyvar. O outro homem o colocou no chão, e ele se aproximou de Karn, com os braços virados para mostrar o dano que se espalhava do seu ferimento. “É tarde demais para mim também. Permita que eu tire o Multiverso da mão deles.”

Ele mancou até a entrada que havia no outro lado da sala. Depois de uma pausa desconfortável, Tyvar e Kaya o seguiram.

Melira se ajoelhou ao lado da cabeça de Karn, limpando os rastros de óleo brilhante e tentando colocá-lo em uma posição mais confortável. Koth e a equipe de explosivos fizeram um círculo ao seu redor e começaram a retirar cargas para livrá-lo daquilo que o prendia. Elspeth parou perto da entrada, sem seguir os outros planinautas e nem ajudar Karn, e olhou para ele.

“Eu deveria — eles precisam — mas você quer que eu fique?” perguntou.

“Quero dizer sim, por nada além de egoísmo, mas não posso,” disse Karn, irritado. “Nunca pensei que você fosse ver este plano mais uma vez. Sinto muito. Queria que você não tivesse que morrer conosco.”

“Foi escolha minha, Karn.”

“Siga seus amigos, saia deste plano. Encontre um lugar mais adequado para um confronto final.”

“Não,” disse Elspeth. “Chega de correr.”

Karn suspirou, com a voz aparentemente exausta.

“Vamos ficar aqui para ajudar a empilhar as cargas e auxiliar Karn assim que ele estiver livre,” disse Koth. “Vá.”

“Eu queria não ter que partir.”

“Tudo bem,” disse Melira, procurando sorrir. “Chegamos mais longe juntos do que eu imaginava que chegaríamos.”

“Vejo vocês em breve,” disse Elspeth, enquanto caminhava pela entrada que dava acesso à fonte da raiz.

A ponte final era longa, branca e repleta de partes vermelhas.

Muitos de seus amigos estavam mortos ou perdidos. Ajani, com a mente distorcida e o corpo condenado a nunca morrer, agora que ele fora absorvido por Phyrexia. Karn, provavelmente danificado além de qualquer conserto. Sua ira era vasta e ainda mais agonizante por ser tão recente. Ela perdera mais do que jamais achara ser possível. Ela sentia que todo o seu ser era uma ferida antiga que fora aberta novamente, maior do que nunca e incurável.

Elspeth começou a correr.

Ela alcançou os outros no meio da ponte, aproximando-se de uma réplica horripilante do altar de Elesh Norn. Esta versão era feita com as raízes entrelaçadas da Destruidora de Reinos, em vez de corpos ossificados de phyrexianos, mas claramente servia ao mesmo propósito. O altar feria os olhos e enganava o coração ao mesmo tempo, e Elspeth odiava-o mais do que pensava ser possível.

Jace estava novamente de pé por conta própria. Ele olhou de relance para ela conforme a integrante se juntava novamente ao grupo, dando um pequeno aceno de boas-vindas, e não disse mais nada. O lugar transmitia uma sensação de vida, oposta à quietude da Basílica: o ar entoava um coro sinistro de vozes dissonantes, sobrepostas entre si para formar uma harmonização de partes incipientes, em vez da cacofonia que era de se esperar.

“Os phyrexianos conseguem fazer harmonias?” suspirou Kaya.

A estática tremulava no ar saturado de éter. O teto de raízes sobre o grupo se abria quando eles se aproximavam do tronco, uma tapeçaria de raízes finas que dava uma vista privilegiada para a grande estrutura da própria Árvore-mundo. As raízes de retorciam por uma abertura direta para as Eternidades Cegas, com clarões de outros planos aparecendo pela névoa. Os galhos superiores crepitavam com a energia que Tyvar chamava de “Trilhas dos Presságios”. Deste ângulo, era possível ver longas passarelas que conectavam as cápsulas brancas oblongas das naves invasoras à árvore. Phyrexianos percorriam apressadamente as passarelas, preparando-se para seu ataque ao Multiverso.

A fumaça expelida pelas naves era vermelha. Vermelha como o sangue, vermelha como o contágio.

“Quantos são exatamente?” perguntou Kaya. “Devem ser milhões deles,” disse Kaito, em silencioso espanto.

“Eles só nos mostraram o que achavam que éramos dignos de ver,” disse Jace. As naves brancas chegavam até os galhos mais altos, como frutas terríveis se preparando para a colheita. “Eles estavam aqui se preparando para a luta real esse tempo todo.”

Por trás deles, na ponte, eles ouviram passos, firmes e confiantes. Quando o grupo se virou, todos estavam empunhando suas armas — exceto Jace, que se agarrou ao Sílex e deu um passo para trás, para longe do conflito que se delineava.

Lá, caminhando na direção deles com a calma de quem se dirige a um encontro vespertino em um parque, estavam Ajani e Tibalt, mas não como eles os conheciam. Ajani vestia uma armadura metálica vermelha e branca que parecia crescer do seu próprio corpo. Ela ecoava a Basílica da Equidade, marcando-o como uma das criaturas de Elesh Norn. Ele carregava um enorme machado duplo, com as lâminas invertidas em honra à phyrexiana.

Ver seu mentor coberto com o uniforme de sua maior inimiga fez com que Elspeth sentisse a própria bílis na garganta, mas não tanto quanto o sorriso que tomou conta do rosto dele ao vê-la. “Bem-vinda,” ele disse, e sua voz era a mesma de sempre. “Elspeth, minha cara, que prazer vê-la novamente. Fico muito feliz em saber que você sobreviveu para se juntar a mim.”

“Não estou aqui para me juntar a você,” ela retorquiu, posicionando a espada à sua frente e agarrando nela com toda a força. “Estou aqui para deter você.”

“Por que você faria isso?” ele perguntou com uma curiosidade honesta. “Agora, podemos ficar juntos para sempre, perfeitos e harmônicos. Chega de diferenças, chega de conflitos, chega de dor. Você estará em casa. Teremos a paz que sempre buscamos. Tudo será Um.”

“Nunca,” Elspeth disse.

Ao lado dele, Tibalt era um pesado de placas ósseas e protusões conectadas por tendões trançados, reconhecível apenas pelo sorriso arrogante que adornava o pouco de carne que restava no seu rosto. Sua cauda, sempre bifurcada na ponta, tinha se dividido até a base, e, agora, tinha como extremidade dois ferrões que pingavam óleo brilhante no caminho de raízes que estava atrás deles.

“Você foi um monstro em Kaldheim. Agora, finalmente tem uma aparência condizente,” disse Tyvar, surpreendentemente calmo.

“Pequeno principezinho, idiota demais para saber quando ter medo,” caçoou Tibalt. “Seu destino sempre foi perecer nas minhas mãos.”

“Kaito, leve os outros ao destino,” disse Tyvar, sem tirar os olhos de Tibalt. “Elspeth e eu cuidaremos dos vermes.”

“Tyvar —”

”, gritou o elfo, sem virar a cabeça. “Estamos predestinados a vencer essas lutas. Os skalds cantarão sobre o confronto que acontecerá hoje, mas só se alguém sobreviver para contar nossa história. .”

“Se você diz,” disse Kaito, que deu um adeus triste e forçado enquanto se virava para oferecer o braço a Jace e guiá-lo até a passagem na parte de trás da sala. Kaya seguiu com um último olhar de remorso, e os três desapareceram, deixando Tyvar e Elspeth sozinhos com seus inimigos transformados.

“Muito bem, muito bem,” disse Tyvar, quase formalmente. “Podemos começar?”

Arte por: Filipe Pagliuso

Ajani rugiu quando Elspeth saltou em sua direção, e Tibalt fez uma investida contra Tyvar enquanto o metal do Vácuo Tremeluzente ondulava sobre a pele do herói, e a batalha começou.

Os gritos começaram pouco tempo depois.

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